O Estado como padeiroNos tempos da Roma imperial, e mesmo muito antes, a principal fonte de energia alimentar de seus cidadãos era o pão - os romanos amavam seu pão de cada dia. Conta-se que a
Legio X, a mais célebre das legiões romanas, criada por César na época das campanhas gálicas, quase se amotinou quando estava baseada na Síria no primeiro século de nossa era e seus legionários se viram obrigados a comer apenas carne devido à escassez de trigo. Assunto sério.
Dois mil anos depois, eu e meus compatriotas brasileiros temos no pão, assim como os antigos romanos, um dos principais alimentos e fontes energéticas. No que concerne a mim, como pão no mínimo em dois momentos do dia, e há os que comem mais. Pão de trigo, basicamente. Eis o problema. Do trigo consumido no país 60% é importado: não somos grandes produtores do produto, apesar de grandes consumidores. E algumas regiões do país, notadamente as mais pobres não o produzem por inviabilidade climática. Faz-se necessário, então, que formas alternativas para a produção de pão e farináceos sejam implementadas.
Sendo o pão feito com farinha de trigo, a rigor, um artigo de luxo (ou pelo menos em tese deveria ser), o pão de amido de mandioca se apresenta como uma feliz
opção. A mandioca é nativa de nosso país e bem tolerante a seca, além de possuir ampla adaptação aos diferentes tipos de clima e solo. Por ser de cultivo relativamente fácil, pode ser também (como o é de fato em algumas regiões) geradora de renda para a parcela mais pobre da população que sobrevive no campo. Certamente algo a ser explorado. Mas também vale lembrar que o trigo tem de 10% a 12% de proteína enquanto que a mandioca de 1% a 2%. É um produto de qualidade inferior, em termos nutricionais.
Entra em cena, então, o “promandioca” (o nome lembra algo?). A proposta é a seguinte: a adição
obrigatória de 10% de amido de mandioca à farinha de trigo a fim de se chegar a uma autonomia na produção de farinhas para pães, biscoitos, massas e afins, e estimular a agricultura familiar. Os moinhos de trigo serão obrigados, por força de lei, a adulterar seus produtos já na fonte, sob pena de pesadas multas ou mesmo a interdição das atividades comerciais.
Sim, amigos, o cacetinho nosso de cada dia, se for produzido com 100% farinha de trigo, dependendo do camarada Aldo Rebelo (autor do projeto, comunista do PC do B-SP,
presidente da Câmara dos Deputados, e que está fazendo o projeto voar na Casa), será considerado ilegal. O Estado-monstro brasileiro, que já intervém em quase todas as instâncias de nossa vida particular (inclusive na forma como educamos nossos filhos), agora invade nossas cozinhas e nos diz como deve ser feito o pão que comemos.
Se é para melhorar a qualidade do que a população pobre consome, outra saída adequada seria a utilização do milho, grão abundante e de fácil produção em todo o país, além de ser um alimento importante desde o tempo dos Maias e Astecas. Mas este milho no Brasil, pasmem, serve para alimentar porcos e frangos... Não existe interesse em fazer reserva de mercado pelos produtores (coincidentemente os principais incentivadores do “promandioca” são, adivinhem quem?, os produtores de mandioca do Paraná e São Paulo).
Em 48 aC, durante a Guerra Civil, Julio César teve grandes dificuldades durante o cerco a Pompeu, o Grande, na cidade de Durrës por falta de provisões. Seus legionários começaram a desenterrar uma raiz chamada “chara” para produzir um tipo de pão vagabundo emergencial. Isso fez com que muitos homens desertassem para seu rival, que levaram esse pão para Pompeu como prova das dificuldades que César e suas legiões passavam. Pompeu teria dito que seus oponentes estavam virando animais que comiam plantas selvagens. Pudesse, talvez considerasse a possibilidade de deserção desse país...
Para ler notícias sobre o “promandioca”:
Folha on line